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“…o vazio de se conseguir o que se deseja em troca do que se é”.

Assim, citando o texto do próprio, descrevo o tom da narrativa do Soul Gambler, jogo para PCs recentemente lançado pela Mother Gaia, de Bauru. Após ter explorado o jogo, não pude me esquivar da dialogia recorrente entre custo e benefício, ou ainda custo e valor, presente na narrativa do título. Fausto é o homo faber de Arendt, imbuído da irrelevância do funcionário de fábrica de Chaplin, tomado pelos sonhos de libertação de Mercury. Incompleto e sabedor disso, Fausto deseja silenciosamente uma mudança – qualquer uma – que torne sua vida mais relevante, seus dias menos mortos.

A narrativa de Soul Gambler oferece ao personagem a realização dessa aspiração, por um preço. Na verdade, muitas coisas na sequência de eventos do jogo requerem que o jogador decida se está disposto a alienar parte da alma do protagonista em troca da realização dos desejos deste, sejam eles aspirações genuínas ou necessidades inventadas. A repetição desta idéia de custo e benefício evoca o peso das escolhas individuais, a necessidade de arcar com suas consequências e também a irrevocabilidade do princípio natural de que a escolha de um geralmente implica na renúncia do outro; de que até mesmo ser quem somos é uma condição que nos afasta de uma pluralidade de estados, pois a própria definição da forma – assim como a das escolhas – implica em renúncias.

Creio que a punição real a Fausto, ao contrário da perda progressiva de sua alma ao longo de suas conquistas, é ser constantemente lembrado que até mesmo um senso de completude só poderia se realizar em meio a restrições, que a idéia de uno é incompatível com a contenção que acompanha a subjetividade, que não se pode ter tudo pois não se pode ser tudo. Assim, o protagonista é silenciosamente advertido sobre sua condição humana, não na acepção de Arendt, mas sim na de sua fragilidade limitada. A relação de Fausto com os outros personagens remete ao tropo do homem que se julga comum e que é posto em contato com poderes maiores do que si, em circunstâncias do mágico, e cuja mundaneidade não resiste ao toque do reino do que é extraordinário, poderoso e maravilhoso.

Tamanha é a fraqueza de suas origens ordinárias de trabalhador qualquer, em um emprego qualquer, com um chefe qualquer e em uma cidade qualquer, Fausto termina a narrativa irremediavelmente modificado. Como nas considerações de Campbell, mesmo que o herói retorne ao seu mundo anterior à jornada, ele não será mais o mesmo. A situação do protagonista ao final da narrativa é próxima ao tropo do semi-deus homérico, que habita uma dimensão intermediária de feitos entre o mundano e o mágico ou divino, mas que é ainda mortal e habita o reino da carne e da mudança – a physis – sem, no entanto, conseguir se apresentar como um qualquer, dada a sua natureza híbrida.

Por fim, penso que Soul Gambler erra ao furtar o jogador de uma relação de reflexão incitada, visto que não vi personagens que quebrassem – mesmo que sutilmente – a quarta parede de modo a sugerir ao usuário que os temas são mais importantes que a estória, até mesmo porque a abordagem de Fausto às situações que o rodeiam beira o banal, como visto nas várias vezes em que aquele não demonstra as consequências do espanto e da confusão que certamente tomariam qualquer pessoa submetida à uma mudança abrupta de vida, como foi o caso dele.

Aos que se interessarem por esse jogo, www.soulgambler.com