The Cave, jogo recentemente lançado pela Double Fine, dos aclamados Tim Schafer e Ron Gilbert, revelou-se uma narrativa sofisticada apresentada através de mecânicas questionáveis. Talvez, o mais interessante dessa situação seja o fato de que a mesma não torne o jogo ruim: isso me evoca fortemente o fato de que jogos sempre foram, com efeito, experiências plurais e, por isso, falhas parciais  não necessariamente implicam em um resultado final indesejável.

Mas, caso, por qualquer motivo, vossas senhorias não conheçam esta maravilhosa jóia do mundo do entretenimento digital, permitam-me brevemente apresentá-la, sem maiores delongas: the Cave é um adventure side-scroller, no qual escolhe-se um time de três aventureiros que marmotam caverna abaixo com o objetivo de viverem uma experiência…única.

Você controlará os três aventureiros, assumindo o controle de um por vez, resolvendo puzzles ao usar objetos para interagir com elementos do cenário. Cada explorador possui uma habilidade única que te ajudará na solução de alguns quebras cabeças e, ao final, a aventura revelará os antecedentes mais obscuros de cada personagem.

O conceito de uma caverna falante e reveladora, já que os comentários desta ajudam a esclarecer as motivações dos avatares, pontuada pela acidez irônica do texto de Gilbert-Schafer, cria uma situação favorável para elaborações maiores ao jogo: estariam os avatares do The Cave, em sua relação indissociável com a Caverna, falando algo sobre a natureza humana?

E, se sim, o que essas várias vozes estão nos dizendo?

Permitam-me conjecturar.

Me parece que a metáfora dos exploradores da Caverna, cada qual com seu desejo, transparece o exercício – por muitas vezes doloroso e confuso – de auto-análise que precede alguns tipos de mudança de valores. Assim como na clássica jornada do herói, o processo de mergulho – seja nas entranhas da terra ou da consciência – leva o sujeito em direção a seus desejos e, no caso do jogo, das consequências dele. Assim como o herói não é mais o mesmo quando do fim de sua jornada, os personagens do The Cave não emergem da Caverna como desceram.

Não apenas o exposto, mas é interessante observar que os personagens do jogo têm, sem exceção, um fato sério e indesejável em seus passados, e que suas idas à Caverna não necessariamente são motivadas por remorso ou uma necessidade de expiação. Percebo que os arquétipos apresentados trazem valores que, somados, poderiam representar o corpo de falhas de um mesmo indivíduo e que, simbolicamente, o conjunto de narrativas de todos os avatares parece representar as inúmeras máculas que todos nós acumulamos ao longo dos anos, assim como nosso desejo de que as coisas tivessem sido diferentes.

Tudo isso com uma pitada de humor canalha, claro.

Às vezes, chego a pensar nos comentários da Caverna como representantes legítimos das pontuações de um analista, seja ele psicólogo, amigo, psicanalista ou garçom: é a voz da Caverna que traz à tona alguns dos discursos ocultos no The Cave.

Um dos traços mais narrativamente exuberantes da aventura de Schafer e Gilbert está na síntese dialógica entre a Caverna e os personagens que nela adentram: não há revelação narrativa feita durante o jogo que se compare com as conclusões que a voz da Caverna nos traz.

A impossibilidade de se segurar mais um objeto por vez, a ausência de um comando para o movimento em grupo e a obviedade das respostas de certos puzzles não desmerece, novamente, o trabalho da Double Fine. Deve-se lembrar, entretanto, que não estamos mais na década de 90 e que o Caipira não é Guybrush Threepwood.

Essa ênfase se faz necessária para tentar mediar as inevitáveis comparações do atual jogo, mesmo não sendo este um point and click adventure, com os sucessos anteriores de seus criadores. Por uma questão de lucidez, deve-se, quando possível, julgar The Cave por seus próprios méritos. Tal julgamento, ao meu ver, é favorável ao revelar que o elemento que mais me fascinou nos antigos adventure games da Lucas Arts ainda está vivo, ativo e emanando a partir do The Cave:    um senso de contar estórias que é mordaz, eloquente, criativo e  jovial.

Boa sorte ao entrares em tua própria caverna.

239750-hd the cave character trailer