Quantas foram as aventuras vividas enquanto jogávamos? Tantos embates e expedições, medos e alegrias, surpresas e decepções e, entretanto, não pensei que os desafios da virtualidade pudessem espelhar os da realidade, ao ingressar há menos de um ano no desenvolvimento de jogos digitais.

Desenvolver jogos no Brasil é tão – ou até mais – difícil que os últimos chefes de sua saga preferida. Não há – dados os problemas de nossa imaturidade fiscal e os altos custos de um jogo digital – um modo de dificuldade fácil nessa missão. Consideremos também que os caros valores de contratação dos poucos profissionais capacitados e residentes no país tornam o empreendimento de criação lúdica uma, com o perdão da piada, aventura.



Pensemos também que, em sentido amplo, criar um jogo digital por aqui implica em uma das seguintes possibilidades: trabalhar com jogos publicitários, depender de iniciativas governamentais e seus editais para a criação de jogos educativos ou se arriscar no desenvolvimento de um jogo de entretenimento, ganhando alguma coisa se o jogo vier a vender bem.

Ironicamente, a iniciativa que cria os jogos em seu entendimento tradicional,  o de entretenimento, é a menos atraente dentre as três já não muito convidativas alternativas mencionadas. Jogos como produto são mais arriscados do que como serviços e, no Brasil, isso só fica mais complicado.

Apesar da existência de bons e talentosos desenvolvedores brasileiros, cada profissional que persiste em sua empreitada de ganhar a vida com jogos digitais é precedido por, ao menos, outros vinte que perceberam que quase qualquer outro ramo de atuação acaba por ser mais atraente que as condições oferecidas pelo nosso ambiente de produção de jogos digitais.

E então, a culpa é de quem?

É um exercício difícil encontrar a resposta para tal pergunta sem valer-se dos lugares comuns que demonizam a carga tributária, a falta de instituições que ofereçam formação de qualidade, os entraves burocráticos que atrasam as startups ou ainda a cultura brasileira, seu pouco apreço pelo trabalho duro e sua grande filia pelo paternalismo estatal, os feriados e a mediocridade qualitativa.

Já li textos que culparam estes e outros fatores como sendo responsáveis pelas agruras do setor de desenvolvimento de jogos pátrio, e me parece prudente afirmar que há um pouco do que foi mencionado, e também de muito mais; como produto dessa tragédia, temos um país em expansão econômica que se mostrou um dos grandes mercados mundiais para o consumo de jogos digitais, mas continua péssimo para se desenvolver os próprios, apesar do otimismo de poucos e da apatia política de vários de nossos desenvolvedores.

A parte mais triste desse cenário é que não é da alçada da parte politizada dos nossos desenvolvedores tratar de questões que não cabem aos mesmos, mas que influenciam severamente o atual ambiente de desenvolvimento. Nossos problemas são, sem sombra de dúvidas, fruto de uma convergência contextual que limita o desenvolvimento bem-sucedido aos poucos que podem capitalizar-se para suportar os riscos da empreitada.

Quando atacou-se a Marta Suplicy por sua polêmica declaração sobre a equiparação dos jogos digitais a um elemento cultural, inobservou-se o fato de que a mesma é uma porta-voz de uma ethos maior, que recrudesce e persiste afirmando que jogos são coisas para crianças.

Podíamos, naturalmente, criticar a porta-voz mas, temos poder real de mudar um paradigma que é maior do que nós, ao envolver uma série de fatores que tornam o Brasil um país caro e difícil para a pequena e média iniciativa privada? É possível que o grito de centenas de pequenos desenvolvedores independentes possa, quando acrescido dos xingamentos no Twitter de uma classe média ortodoxa e temerosa, mudar as coisas na Capital Federal, local aonde as decisões transformadoras se dão?

Aliás, estamos realmente gritando ou, de fato, esperando a próxima oportunidade para conseguirmos um novo edital, uma nova conta de uma empresa-cliente  ou uma vaga de emprego que nos levará às terras frias de algum lugar melhor, também para o desenvolvimento?

Em um país em que é muito mais rentável e fácil passar em um concurso público ou se tornar muambeiro, desenvolver jogo digitais é uma questão de paciência, sorte e resiliência. Não há sangue, suor e lágrimas ao se desenvolver sob o sol dos trópicos.