Antes fosse um post lisérgico de um opinador eventual sobre games. Queria ele… Na verdade, nada mais era que a admissão da culpa partilhada com outros milhões de consumidores: o perdoado pecado de ter mais do que precisava. 152 títulos de posse, pois a propriedade pertencia à empresa de um homem que nunca encontrara e que fez, dizem, dinheiro com o vapor: era muito Steam para pouco tempo livre.

Ahem… Tudo bem, eu andei longe de vocês, meus quatro ou cinco órfãos leitores. Corriqueiramente ocupado, tenho tentado encontrar a tal da inspiração – traço que tem se escondido muito bem de mim – para escrever esses textos que deveriam, se não outra coisa, valer a pena: a única objetividade que talvez seja pertinente ao meu exercício argumentativo, pois que prefiro escrever artigos de opinião, é a de que essas palavras devem, irremediavelmente, te tirar do lugar.

Preferencialmente, que não seja da cadeira, motivado pelo tédio.

Deste modo, vamos à pergunta da noite: qual é a nossa relação com a crescente abundância de títulos à qual estamos expostos? É sábio, ou ainda prudente, comprar mais jogos do que teremos condições de apreciar a médio prazo e sob regimes de distribuição digital que nos vendem a posse, e não a propriedade do que compramos?

Parte do tema proposto acima já foi tratado em um post anterior: http://www.gamepad.com.br/2012/07/04/bigger-better-faster-more/

Não posso deixar de me espantar, e meus textos também advém dessa surpresa.  Espantarei-me trezentas vezes, até que essa situação economicamente, digamos, inusitada passe a fazer sentido para mim. Reflitamos: até que ponto o conforto de saber que temos algo à nossa disposição, mesmo que a rotina nos mostre que fazemos pouquíssimo uso de tal bem, nos é desejável?

Minha resposta para isso é que não devemos negar o consumo de bens e serviços também como uma fonte de prazer, porém que essa prática não pode se tornar a essência de nossa relação com os jogos. Estes foram feitos para entreter, e não para serem comprados: a aquisição deve ser um meio, hoje em dia não mais o único, de se obter o entretenimento. E é na inversão de valores que o gamer com uma lista enorme e pouco explorada no Steam, ou ainda com pilhas de mídias de jogos em seu quarto, se compara à distinta senhora com seus duzentos pares de sapatos.

Tentemos, então, pensar a natureza dessa inversão: qual é o instrumento que nos faz comprar os games que sabemos que pouco jogaremos? Estarão as respostas na nossa fisiologia cerebral, nos nossos imperativos culturais ou nas duas coisas? Existe alguma predisposição cerebral que nos faz estocar as coisas que gostamos, como se fôssemos hamsters se preparando para a estação seca?

Um sentimento comumente associado ao consumo é o da culpa. Não é difícil observar pessoas que, após a compra, percebem que não têm condições de dar significado – em sentido amplo – aos objetos que agora possuem. Criam-se relações despropositadas entre o objeto – que não mais tem valor de consumo – e o comprador, que muitas vezes percebe que o que realmente queria – o ato de comprar – não está mais associado àquele bem, sofre.

Naturalmente, nem todos sofrem, assim como nem todos sequer se perturbam com questionamentos como esse. Hoje, por já tê-lo jogado e querer mostrar apoio aos desenvolvedores, comprei o Bastion. Sabe-se lá o que farei com ele, ao menos agora. Ironicamente, talvez a única culpa possa vir a ser a de não ter mais tempo livre, o que representaria o ápice do exercício acrítico de meu papel de consumidor, coisa que não pode se dar.

Será que devemos, senhores, retornar aos tempos das locadoras, que cobravam por hora e não oneravam o consumidor com esse tipo de sofrimento mundano, pois nada daquilo que consumia durante seu jogo era dele? Estaríamos, talvez, necessitando de modelos alternativos de cobrança pelo conteúdo de jogos digitais, como a recente Core Online, da Square, que cede acesso a jogos digitais gratuitamente, desde que o usuário gaste tempo assistindo a propagandas, exatamente como os canais de televisão?

Seria, talvez, o momento para um serviço digital nos moldes da Online e da Gaikai, mas com o conteúdo baixado para o PC do usuário, que seria acessado através de pacotes de horas?

Não poderia, em minha ignorância, ter uma resposta definitiva para minhas perguntas. Entretanto, ao olhar para minha lista de jogos do Steam, sinto uma mescla de orgulho, culpa e admiração pela amplitude da minha relação com os jogos.

Por fim, a superficialidade da minha relação com tantos títulos, mesmo que não ao mesmo tempo, ironicamente corrobora as tantas críticas, ouvidas também nos corredores dos setores de ciências humanas Brasil afora, afirmando que vivemos em tempos rasos, nos quais o ser humano será tomado pela experiência vasta, horizontal e superficial do conhecimento.

Esse processo, entretanto, me parece irrefreável. Assim, resta-nos lembrar, apesar dos pessimistas, como eu, que a possibilidade de contato com muitas coisas não implica na experiência simultânea dessas vivências, e que é sempre bom poder escolher. Com essa última assertiva, vejo-me obrigado a concordar e, por mais alguns segundos, continuarei a olhar, perplexo, para a lista de jogos que estão a meu acesso.

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