O consumo nosso de cada dia pode nos levar à situações inusitadas.

Vejamos um dos casos em que o consumismo, sagrada instituição moderna, pode testar nossa fé.



É esperado que, em nossa sociedade de criação de necessidades, desejemos possuir coisas com a frequência de um update do Dungeon Defenders. Nós, gamers, costumamos canalizar boa parte de nossos desejos de compra e orçamento na aquisição de jogos, consoles e acessórios diversos, incluindo aquela camisa alusiva à sua franquia favorita. Dentre os citados, os jogos definitivamente são o produto com maior expressividade, dada a frequência com que são lançados e, desde algum tempo atrás, a recorrente renovação através de atualizações, muitas vezes pagas.

Por coisas assim, também se levando em conta a facilidade de compra trazida pela popularização dos meios de crédito e a crescente presença de lojas virtuais, creio que esse momento é muito favorável para brasileiros adquirirem jogos. Mas, toda essa introdução apenas fundamenta a reflexão que esse texto pretende suscitar: nós temos jogos demais.

Sim, it’s too much god damn information.

Assumamos: um dia tem 24 horas e, dada a enorme quantidade de títulos novos no mercado, mesmo que quiséssemos, não conseguiríamos apreciar todos os jogos que estão saindo, quanto mais ainda ter tempo para revisitarmos jogos mais antigos. No momento em que a oferta é maior que nossas capacidades de vivência, acabamos por precisar fazer escolhas, e são essas escolhas que terão um papel crucial na nossa apreciação dos jogos e, consequentemente, em nossa diversão, pois cada escolha também implica em uma renúncia.

O fato de que geralmente podemos comprar mais títulos do que temos condições de jogar pode ser angustiante: pode haver a sensação de que o valor gasto foi mal utilizado, visto que um título intocado é apenas uma potencialidade, ou ainda um sentimento de impotência, de não se estar dando conta da atividade. Eu, particularmente, já vivi estas situações e, infelizmente, não pratiquei a única aparente solução: comprar menos jogos ou parar de comprá-los até que tenha jogado os que já possuo.

Essa situação de desproporção entre o que se pode e o que se há para consumir não é exclusiva aos jogos, mas parece-me ser um problema recente no nosso contexto dos gamers brasileiros, habituados a orçamentos apertados e pouco acesso ao crédito. Como jogador no PC, a grande diferença entre a minha coleção de jogos e o armário cheio de sapatos que algumas mulheres têm está no fato que meus mimos ocupam bem menos espaço.

A pergunta principal é: precisamos realmente de tantos títulos? A variedade é sempre algo bom, mesmo quando essa oferta causa opressão e a sensação de que se está perdendo algo? Como se apresenta, no contexto do gamer, a idéia de um consumo responsável?

Postas as questões, restam-nos a reflexão e o debate.