O governo iraniano, após casos como o do jornalista Maziar Bahari, tornou-se notório por forçar confissões de seus opositores políticos. Portanto, se tudo o que Amir Mirza Hekmati confessou for verdade, com apenas 28 anos de idade, esse militar norte-americano – condenado à morte por espionagem – já acumulou uma variedade impressionante de experiências que poderiam ser úteis em operações estratégicas e negociações urgentes no Oriente Médio… Úteis nisso ou, “obviamente”, no desenvolvimento de joguinhos para computador.

Em agosto, ele foi capturado, acusado de tentar se infiltrar no Ministério de Inteligência iraniano. E, no mês passado, em confissão televisionada pela emissora estatal desse país, Hekmati supostamente revelou treinamentos e estudos com o Exército estadunidense, a Central de Inteligência Americana (CIA) e uma universidade árabe. Também foi alegado trabalho na guerra do Iraque e na Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa (DARPA, onde surgiram, durante a Guerra Fria, duas invenções de que você já deve ter ouvido falar: a Internet e o GPS). E, nesse currículo, onde entram os jogos?



De acordo com a confissão, a empresa Kuma Games, produtora de pequenos newsgames belicosos, teria recebido o currículo de Hekmati da própria DARPA! Ou seja, um veterano de guerra, trabalhando com as mentes por trás da Internet, foi “promovido” a ajudar no desenvolvimento de joguinhos gratuitos sobre eventos como a execução de Osama Bin Laden (veja abaixo) e a de Muamar Kadafi. A declaração também dá a entender que o objetivo da produtora é difundir a ideologia da CIA entre gamers do Oriente Médio. Apesar de o governo dos EUA e a família de Hekmati negarem categoricamente as acusações, o nome dele, segundo o The Wall Street Journal, aparece associado à Kuma no site de um programa governamental para pequenas empresas. Além disso, em entrevista de 2007 ao Gamasutra, Keith Halper, diretor executivo da produtora, declarou que seus jogos recebiam inputs de experts militares e já haviam sido baixados “centenas de milhares de vezes” no Irã.

Caso tenham sido planejados ideologicamente, não caracterizariam a única propaganda militar norte-americana disfarçada de game. Um exemplo é America´s Army, outro freeware de tiro, lançado inicialmente em 2002 para incentivar o recrutamento. Ian Bogost, professor do Georgia Institute of Technology, comentou que, se tiverem sido financiados pela CIA, esses newsgames seriam “propaganda ocidental bem ruim”. Para ele, jogos mais persuasivos são aqueles que dão aos usuários uma chance de ver as consequências de diferentes ações.

Bogost tem argumentos coerentes. Mesmo com visuais realistas, os produtos da Kuma Games não conseguem ser ideologicamente convincentes, já que, em geral, não passam de shooters, cujo objetivo é assassinar o alvo, no estilo de um robô exterminador. Agora, se a CIA patrocinasse algo criativo como Darfur is Dying, o mundo, de fato, estaria mais seguro, pois este é um newsgame cujo objetivo é salvar o alvo, no estilo de um ser humano.