Não é de hoje que a Electronic Arts faz besteira.

Criado pela comunidade em um dos fails da EA

Antes de qualquer coisa, a EA é reconhecida por ter uma prática de mercado batizada com seu nome, a tal “síndrome de EA”. Para quem não sabe sobre o que estou falando, leia este post e se informe, ou se preferir, segue um resumo que explica a essência do problema:

“Síndrome de EA” é uma prática comercial adotada por publishers que buscam exaurir suas IPs (Propriedades Intelectuais) em busca de faturamento acima da média, lançando jogos da mesma franquia e conteúdos adicionais em curto espaço de tempo, impedindo seu desenvolvimento criativo, aperfeiçoamentos e inovações, levando o mercado ao stress, ao desinteresse do público e a saturação da marca no varejo.

Se você não entendeu o motivo pelo qual o nome da EA está presente na “síndrome”, basta olhar para o que ela fez nas franquias Need for Speed e The Sims, sem considerar também Battlefield, Spore, o lançamento às pressas de Dragon Age II e os jogos anualizados de esportes de toda ordem.

Um golpe contra os serviços de distribuição sob demanda

Epic win!

A Electronic Arts vem lutando com as plataformas de distribuição digital, em especial o Steam – pioneira entre elas – faz algum tempo. Muitos jogos da publisher sequer são publicados em outras plataformas, e em alguns casos, são publicados em todas… exceto na líder – o Steam. Lembro-me bem do lançamento do título Need for Speed: Hot Pursuit, onde milhares de pedidos lotaram os forums da EA, assim como milhões de menções insistentes dos usuários aos perfis dos desenvolvedores no Twitter, pedindo que o jogo fosse disponibilizado no Steam. Basicamente, o aviso era “no Steam = no buy” (sem Steam = sem compra), dizendo que, se não fosse disponibilizado através do Steam, eles não o comprariam de outra forma. Nessa ocasião, as solicitações foram atendidas.

Para agravar o cenário, a EA vem golpeando os usuários de plataformas de distribuição terceiras aos poucos: Alguns títulos são lançados com atraso, alguns títulos não recebem atualização, alguns títulos, quando vendidos por plataforma de terceiros – como é o caso do título Mirror’s Edge – não são compatíveis com os DLCs do próprio jogo, alguns títulos possuem itens exclusivos que só são liberados ao serem adquiridos através da própria EA e por fim, alguns títulos sequer são lançados em plataformas de terceiros.

A Electronic Arts resolveu piorar a crise. Eles resolveram remover títulos já lançados em plataformas terceiras para serem publicados em sua “mais nova” plataforma de distribuição digital. O jogo Crysis 2 foi subitamente varrido de plataformas como o Steam, para ser distribuído “com exclusividade” pela plataforma Origin.

Tentando lançar seu próprio serviço de distribuição

A Electronic Arts entrou no mercado de distribuição digital muito tarde, em meados de 2006, com um gerenciador de downloads chamado “EA Downloader”, que no mesmo ano foi renomeado para “EA Link”. Ao comprar um jogo no site da publisher, você abria o EA Downloader/Link, que nada mais era do que um programa que gerenciava downloads, para descarregar o jogo adquirido e ativá-lo. De cara, a ideia não vingou. O Steam estava a anos-luz em inovação, controle de contas, downloads ilimitados, chat por texto e voz… enquanto com a EA, você tinha que pagar uma taxa adicional para eles caso quisesse ter o direito de baixar o jogo que você comprou por mais 1 ou 2 anos. Pois é, não faz sentido.

Percebendo a cagada feita, a Electronic Arts resolveu lançar em 2009 um novo serviço de distribuição, chamado “EA Download Manager”, conhecido também como “EADM”, mas não convenceu ninguém. O EA Download Manager nada mais foi do que o EA Link, com um gerenciador de download e instalação, ou seja, você abria o EA Download Manager, e se você ainda não tivesse baixado ou instalado tal jogo, poderia fazê-lo através do programa, sem precisar acessar o site para isso. Não preciso dizer que o Steam, e também várias outras plataformas, ainda estavam anos-luz a frente em inovação, praticidade, recursos, confiabilidade e catálogo de jogos.

EA Downloader / EA Link / EADM re-re-renomeado

Em mais uma tentativa de enterrar essa história toda, a EA comprou o domínio Origin.com e resolveu lançar em 2011 um “novo (?)” serviço de distribuição digital… o “Origin” (agora sem a marca EA). Basicamente pegaram o EA Download Manager, adicionaram um recurso onde você pode adicionar seus amiguinhos no programa e pronto, heis um gerenciador de downloads com comunicador embutido, não se deram o trabalho sequer de melhorar a interface do programa ex-EADM. Inovador, não? (NÃO!)

Jogando contra o mercado

A Electronic Arts é uma publisher, e embora tenha um bocado de estúdios sob sua saia, ela é a maior interessada para que o mercado prospere uma vez que seu maior faturamento vem de publicações de terceiros, mas parece não aprender com seus próprios erros.

Após boicotear outros serviços de distribuição, impedir atualizações, conteúdos adicionais, criar privilégios aos seus títulos quando vendidos “em casa” e remover seus próprios jogos das prateleiras das concorrentes, eles anunciaram que alguns jogos serão publicados com exclusividade permanente em sua “recém lançada” plataforma de distribuição (se é que podemos chamar isso de plataforma…) Origin.

Resumidamente, a EA não foi feliz no mercado de distribuição digital porque tal modalidade de serviço tem grande valor agregado no que se refere a fidelização do usuário. Como já existiam plataformas consolidadas no mercado como o Steam, as plataformas da EA entraram tarde no jogo, e sem diferencial, não conseguiram criar seu próprio público. Uma vez que nenhum usuário gosta de manter diversas plataformas de distribuição abertas simultaneamente para ter acesso aos jogos de diferentes publishers, estes optam pela mais confiável, completa e competente. Alguns preferem o Direct2Drive, outros, Impulse, outros, Desura, e outros, Games for Windows Marketplace, e quem abocanhou a maior parte do mercado, como já foi dito, foi o Steam.

Por conta desses problemas, entendo não que estou promovendo um boicote, mas sim atendendo ao pedido da Electronic Arts de ser boicoteada, uma vez que ela mesma não tem interesse em vender seus títulos em outras plataformas, e quando o faz, se oferece de forma limitada e pouco confiável.

Boa sorte, EA!

Update 1:

A Electronic Arts enviou um comunicado a IGN informando que eles não removeram o jogo Crysis 2 deliberadamente do Steam, mas sim foi uma iniciativa da controladora da plataforma, a Valve. Segundo o comunicado, a plataforma “impôs um certo número de termos, esperando vender conteúdos através do serviço, e como a Crytek tem um acordo com outro serviço de download, este viola as novas regras do Steam, o que ocasionou a expulsão do título Crysis 2 do Steam”. Este post será atualizado assim que tivermos informações por parte da Valve. Saliento que existem inúmeros outros jogos que vendem conteúdos “por fora” do Steam e ainda estão presentes lá. Suspeito.

Update 2:

Faz 3 dias que a IGN pediu uma resposta oficial da Valve, e até então não obtiveram (ou publicaram) resposta. Analisando o jogo em questão referente ao evento (sobre a remoção do Crysis 2 da plataforma Steam), notei que o jogo, embora realizasse venda de conteúdos extras dentro do próprio jogo, este é o único onde o usuário pode inserir as informações financeiras dele e concluir a compra sem sair do jogo, em todos os outros casos, o usuário é levado para um site externo, realiza a compra de créditos, e conclui a compra “ingame” através de alguma moeda virtual ou código exclusivo. Quem faz toda a transação de dentro do próprio jogo Crysis 2 é o GameSpy.

GameSpy é da IGN.

Eu acredito que:

  • NESTE CASO (e somente neste), a EA não tenha tido qualquer relação sobre o problema de distribuição, embora tenha causado furor ao colocar que Crysis 2 era exclusivo da plataforma Origin, assim como vendendo conteúdos de pré-venda exclusivamente por aquela plataforma.
  • A IGN, por ser dona da empresa que causou esse mal estar entre Valve/EA/Crytek, decidiu não dar um tiro no pé divulgando informações como “o jogo foi removido do Steam porque a desenvolvedora tem um contrato com uma empresa nossa, que viola o termo de uso da plataforma Steam”.
  • A Valve coloca em contrato, provavelmente para evitar problemas legais, que os jogos não podem manipular informações financeiras dos jogadores em títulos distribuídos pela plataforma Steam, pois, em caso de problemas financeiros ou de entrega, a plataforma, como provedora do acesso ao jogo, poderia também responder legalmente sobre as transações.

E por fim, espero mesmo que tudo se resolva no futuro e que este tenha sido somente uma exceção entre a Crytek e a Valve, ao invés de levar o caso a uma briga entre publishers, porque, como costumo dizer, “no Steam = no buy”, mesmo para o Battlefield 3.

PS: Para quem não sabe, a Electronic Arts é a publisher oficial dos títulos retail (em mídia e caixinha, no varejo) da Valve. Poético, não?